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Overturismo e as cidades que pedem socorro

Over turismo nas cidades
escrito por Kenia Miranda

Hoje vamos falar de Overturismo. Nunca é tarde para mudarmos comportamentos. Afinal, quem não ama viajar? Inclusive, existem estudos que apontam grandes benefícios que a viagem pode trazer ao ser humano. Por exemplo, aumento do nível de prazer, de bem estar e de inteligência.

Talvez ninguém discorde, que após meses de trabalho, nada melhor que uma boa viagem para descansar e desligar da árdua rotina e das nossas responsabilidades mais pesadas.

Viajar significa desfrutar de novas culturas e novos sabores. Ouvir novas línguas e arriscar praticar novos idiomas, enfim, respirar novos ares.

Sem dúvida, durante a pandemia, principalmente para nós que trabalhamos com turismo, muito se falou que seria uma boa oportunidade de pensarmos e planejarmos um novo tipo de turismo, ou seja, mais sustentável.

Talvez a linha de pensamento tenha se perdido após a pandemia, mas alguns questionamentos seguem sendo feitos.

Mas será que o turismo é mesmo tão bom para os locais visitados? E para a população local? Questiono mais. Será que é possível ter um turismo sustentável?

Vale ressaltar que o turismo também é uma indústria. Ou seja, assim como todo negócio, muitas vezes o dinheiro e os números prevalecem sobre o bem estar dos seus moradores, a conservação ambiental e patrimonial.

Já abordamos o assunto por aqui com dois artigos, que valem a leitura Turismo: O sonho de viajar sem conflito com o destino e o Turismo com animais silvestres: diversão ou crueldade?

O turismo é uma faca de dois gumes

De fato, muitas pessoas ainda acreditam que o turismo é apenas sinônimo de coisa boa, talvez por desconhecer o outro lado da história.

É indiscutível que o turismo urbano pode ser um motor de regeneração para a preservação do patrimônio arquitetônico e para a reabilitação de edifícios. Assim como, contribui para a criação de empregos. Mas, sem dúvida, a ausência de uma estratégia de planeamento turístico e urbano corretos, juntamente com o quase inexistente processo de regulação, tem consequências destruidoras.



O que é overturismo e quais são os seus efeitos

Overturismo significa excesso de turismo. Mas antes de continuar, vou deixar claro, que excesso não é apenas um lugar muito cheio.

De acordo com o relatório da Organização Mundial do Turismo (OMT), o overturismo é “O impacto do turismo em um destino, ou em parte dele, que influencia excessivamente de maneira negativa a percepção de qualidade de vida dos cidadãos e/ou a qualidade das experiências dos visitantes”

De fato, falar do overturismo é colocar o foco nas situações que o excesso do turismo impacta num destino. Seja física, social, econômico, patrimonial ou ecologicamente.

Acredito que nada melhor do que se colocar no lugar do outro para entender o que se passa. Então, imagine agora viver num lugar lindo, onde um grande marketing de turismo foi realizado e graças a isso, um grande número de visitantes querem conhecer o local. O bendito “local instagramável”.

Este número de turistas é tão grande que alguns moradores, inclusive um deles pode ser você, acabou sendo “expulso” porque os aluguéis por temporada, são economicamente mais rentável para os proprietários do que ter um inquilino tradicional. Pronto, isso foi o que aconteceu em Barcelona.

Outro caso, provavelmente, mais divulgado é sobre Veneza. Muitas padarias, floriculturas e outras lojinhas fecharam as portas por não conseguirem competir com grandes lojas internacionais.

Se você não conhece Veneza, eu vou lhe contar. São inúmeros os cruzeiros que chegam e saem dali, deixando de brinde uma quantidade enorme de lixo largado pelos turistas.

Uma tentativa do governo local para tentar diminuir os prejuízos locais está sendo implementada. Por exemplo, uma taxa agora será cobrada dos turistas que desejam conhecer a cidade, mas não desejam passar nem uma noite na cidade.

Assim como, navios para atracar no porto, devem ter uma pesagem específica. São pequenas medidas, talvez paliativas para tentar salvar um destino, que poderia ser visitado, mas que o excesso de turistas está destruindo.

O overturismo afeta também ambientes naturais frágeis

Pouco se fala sobre o assunto. Mas acredito que também poucas informações buscamos como turistas. Confesso que visitei os corais de Porto de Galinhas. E apenas lá, após sair de um dos poços, levei um susto ao ver cordas para proteger corais que já haviam sido destruídos pela quantidade de turistas que já haviam passado por ali.

Piscinas Naturais de Porto de Galinhas - Pernambuco, Litoral Nordestino, Agarre o Mundo
Piscinas Naturais de Porto de Galinhas – Pernambuco

Então, saí me perguntando “Que mal como turista, eu também estaria fazendo para a natureza?” Decerto, é muito fácil ficar cobrando ações governamentais e ficarmos de braços cruzados ou percorrendo caminhos que também atuam para a degradação.

Confesso, que após aquele passeio, eu penso e investigo muito mais sobre a forma mais sustentável de se fazer turismo, assim como posso praticar várias ações, no meu dia a dia, em prol de uma vida mais em harmonia com a natureza e o futuro do planeta.

Amamos viajar e como podemos fazer isso de forma sustentável?

Segundo especialistas algumas medidas podem ter grande impacto. Incialmente tomando consciência do nosso impacto na escolha dos destinos e no impacto que causaremos neles.

E após a escolha do destino, que tal comer em restaurantes locais e contratar guias locais. Se possível evite o turismo em massa. Claro, que muitos destinos atraem mais em determinados períodos. Como a Grécia no verão, Bariloche e Chile no inverno.

Sem dúvida, precisamos todos juntos, pensar em formas de comtemplar, viajar, sem destruir e degradar. Como relatei, algumas cidades começaram a tomar algumas decisões, cobrando taxas para se visitar a cidade, como será feito em Veneza.

Será que o ditado “Se pesar no bolso” funciona? Você sabia que em Ruanda se cobra um valor US$ 1,5 mil (R$ 5,1 mil) por dia por uma autorização para observar os gorilas?

Se esta é a melhor solução? Não sei responder, pois ainda assim, muitas pessoas pagam pelo passeio, deixando o passeio apenas mais elitizado.



O nosso Jalapão começou a tomar medidas antes que desapareça

O Jalapão já sofre com o overturismo? Ainda não, mas está observando e tentanto já evitar os efeitos do turismo desenfreado.

Se você não é novo por aqui deve ter lido dois dos textos que mais amamos aqui do blog: Jalapão com bebê: é possível e maravilhoso e Fervedouros do Jalapão.

Não apenas destinos no exterior vem sofrendo com o turismo desenfreado. Muitos destinos brasileiros também pedem socorro, embora seus pedidos muitas vezes são ignorados. Você sabia que existe um lixão no maravilhoso Morro de São Paulo? Lixo que os turistas ajudam a produzir.

Lixão em Morro de São Paulo, Agarre o Mundo

Como o Jalapão, assim como todos os outros, é um destino que precisa ser cuidado, já que sem a natureza, não tem turismo, algumas medidas começaram a ser tomadas, para controlar o número de turistas e assim manter o equilíbrio da natureza neste local.

Isso mesmo, a visitação ao Parque Estadual do Jalapão agora vai ficar mais rigorosa. Começaram a exigir um voucher para entrada em parte dos atrativos, a partir do dia 1º de setembro de 2022. Inicialmente a emissão desse bilhete digital será gratuita e será feita apenas pelas agências de viagem e operadoras de guias.

Ou seja, se você pretendia conhecer o local sozinho, sem ajuda de um guia ou agência, esqueça a ideia. Esta foi a maneira que encontraram de ter o controle do número de turistas que visitam o local.

Como apresentei, muitos destinos têm trabalhado para conter o overturismo. Deixo aqui quatro destinos ao redor do mundo que estão buscando maneiras de lidar com a alta popularidade de seus pontos turísticos.



1. Overturismo na Tailândia: Maya Bay se recuperou um pouco

Talvez você se lembre. Em março de 2018, as autoridades tailandesas anunciaram que estavam suspendendo as atividades turísticas de Maya Bay, a praia mais famosa da Tailândia, para dar a ela uma breve pausa. Segundo o governo local a mesma se recuperou um pouco. Então, foi reaberta em 2022.

Entretanto, algumas restrições foram impostas, como o número diário de turistas por dia, que aliás não mudou muito em relação ao número de visitantes por dia antes de fechar. Ou seja, estão hoje limitados a 4125 visitas diárias. Com uma diferença que não se pode exceder 375 pessoas ao mesmo tempo.

Além disso, as visitas serão limitadas a 1 hora e ainda não será permitido nadar dentro da própria baía. E os visitantes de Koh Phi Phi terão que se inscrever com antecedência para conseguir um ticket.

2. Overturismo na Itália: Cinque Terre se degradando

Que o lugar é lindo, ninguém tem dúvida. Mas pense no mesmo recebendo mais de 2 milhões de turistas por ano.

O que os visitantes desejam? Claro, percorrer os caminhos pitorescos que ligam as cidades e os vinhedos. No entanto, ao longo dos anos, os caminhos foram às ruínas. Por conta da erosão e ao uso excessivo pelos turistas.

A rota mais popular da região entre Riomaggiore e Manarola está fechada desde setembro de 2012, depois que um grupo de turistas australianos ficou ferido em um deslizamento de terra. Após anos fechada, uma obra, que terá um gasto milionário, começou a ser realizada e provavelmente em 2024 ela volte a funcionar.

Mas será que apenas a sua reconstrução será o ideal para cidade? Talvez quando outro problemas começarem a aparecer, outras medidas sejam tomadas. Assim como outros destinos italianos que vêm criando regras para conter o número de turistas.



3. Overturismo no Peru: Machu Picchu aposta em períodos mais curtos de visitas

Machu Pichu, Agarre o Mundo

Quem não sonha em conhecer a antiga cidade inca de Machu Picchu, no Peru? Percorrer a linda trilha Inca em meio a paisagens andinas e suas florestas nubladas.

No entanto, com um grande número de turistas viajando ao mesmo tempo, somado a um excedente de guias não regularizados, muitas rotas foram danificadas e uma quantidade exagerada de lixo foi se acumulando.

Lá em 2005, o governo do Peru impôs algumas regrinhas como um limite ao número de visitantes. Além disso, determinou o fechamento da região durante o mês de fevereiro para limpeza e manutenção.

Embora pareça uma excelente regra, alguns ambientalistas acreditam que estas são medidas paliativas, já que o número de visitantes ainda está acima do recomendado pela Unesco.

4. Colômbia: Caño Cristales cria novas regras

Se você nunca ouviu falar deste destino, tenho certeza que a vontade será adicionar mais este local à sua listinha, após ver as imagens do local.

Caño Cristales é um rio que tem cores que impressionam. Isso se dá, por conta das suas plantas aquáticas que traz as cores vermelho, verde, rosa e amarelo. Carinhosamente os moradores da região o chamam de “arco-íris líquido”.

Por sorte o local ainda não recebe milhares de turistas, mas já luta para manter este ecossistema delicado protegido. E vendo o estrago que o turismo faz, já iniciou com várias regras de proteção. Por exemplo, garrafas de plástico não são permitidas, assim como protetor solar ou repelente de insetos na água.

Além disso, não é em toda a área que o banho é permitido. Não se pode alimentar os peixes e nem fumar. E antes de iniciar o passeio, os visitantes recebem todas as instruções e regras para evitar a destruição. Além disso, não permitem o acesso ao local em um determinado mês para a recuperação da flora.

Melhor seria, não haver destruição para que fosse necessário a recuperação.



Outros destinos que buscam soluções

As Astúrias mantêm o plano especial de transporte para os Lagos de Covadonga – Parque Nacional dos Picos de Europa. Assim, nas épocas de maior afluência, só podem ser utilizados carro ou táxi com licença em Cangas de Onís.

Já na Galiza, a praia das Catedrais, em Ribadeo (Lugo), tem entrada reservada gratuita online, e na costa da Biscaia, o acesso ao ilhéu de San Juan de Gaztelugatxe foi reaberto ao público, embora com um limite de quase 1.500 pessoas por dia.

Praia das Cadetrais

No maravilhoso arquipélago das Canárias, com cerca de 15 milhões de turistas por ano, delimitou o ultimo trajeto ao cume do Tejo um limite de 200 visitas diárias. O mesmo acontece em Timanfaya, nas montanhas de fogo de Lanzarote, onde o acesso é pago.

Ilhas Canárias

Enquanto em Garajonay, com as florestas de laurissilva de La Gomera, o número de veículos é limitado a Las Mimbreras, em El Cedro. Além disso, em Gran Canaria, na praia de Maspalomas, que é uma reserva natural protegida, já têm áreas delimitadas e inacessíveis.



Para que melhorar, se podemos piorar?

Coreia do Sul: Jeju Island

Talvez para os brasileiros este não seja o destino mais conhecido e cobiçado. Assim, pode ser que se surpreenda quando ler que esta é uma das rotas mais concorridas do mundo. Isso mesmo, do mundo.

Só para ilustrar e para que você entenda um pouco da dinâmica deste destino. Em 2017, foram quase 65 mil voos para a ilha. Ou seja, quase 180 voos por dia.

E se você achou muito 2 milhões de turistas visitando o Cinque Terre, aqui, por ano, cerca de 15 milhões de turistas chegam para visitar a ilha.

Ah, esqueci de falar, que é uma ilha que fica a 90 km de distância do continente. Detalhe, a área da ilha é de apenas 2 mil km². De fato, é linda, já que conta com paisagens vulcânicas e lindas cachoeiras.

O território está sendo danificado de maneira rápida, já que também recebe muitos cruzeiros igualmente como Veneza e Santorini. Ou seja, as pessoas descem, conhecem, “depositam” seus lixos e voltam para o mar.

Tristemente, não existe um plano de ação em vista. Já que o governo Coreano, pretende construir mais um aeroporto na ilha, visando aumentar o número de turistas para 45 milhões até 2035. É pouco ou quer mais?

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Beijinhos e até mais



Kenia Miranda

Brasiliense, sempre disposta a aprender e descobrir o novo, com um apreço enorme por novas culturas e costumes. Apesar de ser formada em Odontologia, está sempre buscando novos caminhos e novos aprendizados. Uma das suas frases preferidas: "Minha alma é muito livre para ficar presa seja lá no que for."

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