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Viagem: substantivo feminino

Mulher viajante: Thais na Escandinávia
escrito por Thais Oliveira

Dia Internacional da Mulher: aqui faço um convite à mulher viajante.

Sem medo

as mudas

só as de roupa

os acúmulos

de milhas apenas

Parada?

Só a próxima!

Atenas? Podemos!

Somos todas um pouco…

Ainda melhores

Sem medo

Assim mulheres

………………………………………………………………………………

Mulher viajante

Excesso de bagagem, mulher viajante

O medo é o principal item de excesso da bagagem feminina. É preciso diminuir esse peso de nossas malas. Porque sabemos: peso e medo, ao contrário de viagem, não são substantivos femininos.

Reparem que não falei em total retirada, até porque sentir medo é o nosso instinto de sobrevivência nos apitando a possível presença do perigo; o que é extremamente necessário quando na medida certa, sem que nos paralise. Medida certa é duplamente feminino. No entanto, perigo…

Nossas inseguranças em viagens são as mesmas pelas quais atravessamos no dia a dia da rotina referente à condição de, simplesmente, sermos mulheres.

Dos inúmeros fatores de turbulência nesse voo-viagem, assédio, e todas as suas gradações e paleta de dores, é o mais recorrente (nem preciso dizer se é do feminino ou não, certo?).

A boa notícia? Quem pilota esse avião somos nós! Então, façamos as melhores manobras de enfrentamento disso para chegarmos sãs e salvas em nosso destino.



Toda mulher viajante tem…

Toda mulher tem seus muitos carimbos de assédio em seu passaporte de vida de viajante. Porque é estrutural o pensamento de que não podemos ser plenas e completamente felizes se estamos sozinhas ou acompanhadas somente de outras mulheres.

Vem logo aquela abordagem indesejada querendo saber onde está o marido, namorado, algum homem, um qualquer, um mínimo, um minúsculo, um inho-zinho que seja.

E claro que, nas minhas muitas andanças, já tropecei muito – e ainda esbarro – nessas pedras pelo caminho. O que faço com elas? Não guardo nenhuma para construir castelo algum, até porque o conceito de princesa é reducionista e ultrapassado faz tempo.

Pedrinhas na Turquia

Bem como pelo motivo de castelo me soar um tanto claustrofóbico e prisional: muito muro, muito cinza, muito distante de tudo. Como diria a ícone Nazaré Tedesco “Não! Pelo amor de Deus, me deixa sair! Eu não posso ficar presa. Não nasci pra isso. Eu preciso ver gente, eu preciso bater perna!!!”.

Voltando às pedras no caminho: cato todas e taco de volta nos inconvenientes. Namastê.

Uma dessas minhas pedrinhas aconteceu num roteiro de que gostei bastante, foi o que fiz para Turquia, um país, diferente do que muitas pensam, bastante seguro para explorarmos sozinhas.

Visitei o país no verão e não tive qualquer problema em usar a vestimenta normal que usamos no Brasil. Aproveitei o mar, mergulhando nas águas do Egeu, aproveitei o ar pelos balões da Capadócia e pelos famosos parapentes da província de Oludeniz (uma pérola turca não muito badalada mas que recomendo enormemente).

Aproveitei para conhecer pessoas (novidade rsrs): fiz amigas turcas que permanecem na minha vida até hoje, bem como fiz amizade com uma russa (aquela, do artigo anterior, que me recebeu em Moscou um ano depois, lembram?).

Thais e amigas turcas

E até aproveitei para brincar de experimentação de uma nova nacionalidade, porque fui bastante confundida como uma local nas estações de metrô de Istambul: várias pessoas de lá – muitas mesmo – me paravam para perguntar informações de como se chegava nos lugares (me lembrem, quando terminar esse artigo, de eu fazer uma pesquisa aprofundada de minhas origens e ancestralidade ok?).

Mas voltando à pedrinha no caminho…

Na minha primeira noite na Turquia, na Capadócia, exausta da viagem, tudo o que queria era banho, comida e descanso. Pois bem, depois do banho, naturalmente meu corpo relaxou ainda mais e, com isso, não tinha forças para me deslocar ao centro da cidade em busca de comida.

Por sorte, havia um restaurante no terraço do hotel e, logicamente, fui para lá. Já estava relativamente tarde, o local estava um pouco vazio, mas ainda tinha gente e estava funcionando.

Lua da Turquia

Sentei-me bem de frente pra Lua, aquela super lua vermelhona, lembram?

Céu da Capadócia, comida turca deliciosa, um vinho, mó paz.

Mas vocês já devem saber que mulher sozinha não tem paz por muito tempo.

Eis que, naquele combo perfeito, veio de brinde a pedrinha enjoada para eu tropeçar.

Olá, tudo bem? Estava vendo você ali de longe e percebi que está sozinha…

Oi…boa noite (sorriso amarelo e a nota mental: estava tudo bem até você vir empatar meu date com a super lua vermelhona, e nem tinha percebido sua presença no recinto).

Meu nome é (nesse momento do texto eu clamo a participação especial da imaginação de vocês porque a minha chateação naquela hora me impediu de prestar atenção no nome) … qual o seu?

Thais (a cara, que já não estava boa, ficou pior).

Você é de onde? (nisso já fazendo movimento de sentar-se à mesa).

Então, Senhor (o nome que vocês inventaram), eu não quero que você se sente aqui e quero continuar sozinha com meu vinho ok. (realmente vinho é melhor que muita gente).

Vocês já devem imaginar que o “princeso” não gostou e saiu com cara de poucos amigos. Mas saiu. Ufa!

Pausa dramática:

Mulher viajante: Thais e a sua taça de vinho

Rapazes que estão lendo, vocês já devem saber (ou deveriam) que uma mulher sozinha com seu vinho não quer guerra com ninguém, nem conversa, nem nada – ainda mais se ela sequer viu você – essa mulher quer paz com ela mesma e seu momento ali.

E tenham certeza de que, diferente do que a maioria pensa, essa mulher está sim muito feliz e não está lhe faltando nada. Talvez a próxima taça. Se não forem convidados, não importunem. Estar sozinha não é o mesmo que estar disponível. Pela atenção, obrigada.

Outra abordagem similar a essa me ocorreu numa viagem à Escandinávia, também num voo solo, quando visitei a Noruega (outro roteiro super seguro para mulheres que viajam sozinhas).

Aconteceu num fim de tarde, eu resolvi parar num barzinho ao ar livre, bem movimentado, para apreciar meu rosé e o pôr do sol (bela harmonização por sinal) e relaxar depois de um dia inteiro de turistagem e bateção de perna.

Mais uma vez, eu só queria paz. As mesas daquele bar eram todas daquelas bem compridas com dois bancos inteiriços, um de cada lado, e, por serem desenhadas assim, deveriam ser totalmente ocupadas. Em cada uma cabiam umas dez pessoas, então eu não tinha como ficar sozinha com uma só para mim (bem que eu gostaria). Foi quando chegaram as minhas companhias e adivinhem: um grupo de uns sete homens. (puxa, Murphy, pegou bem pesado comigo nessa hein).

Mais uma para uma mulher viajante lidar

Oi! Qual seu nome? De qual país você é? Seu namorado deixou você viajar sozinha? Como assim uma mulher como você não tem namorado? Blá blá blá.

Eu juro para vocês que eu desconhecia a existência de uma cartilha universal de abordagem da brotheragem. Tipo o Esperanto da Pangeia masculina de aproximação e flerte. E eu, na esperança de só beber meu vinho.

Essa importunação durou mais um tempinho porque eu me recusei a sair, já que havia chegado primeiro e porque não havia mais outro lugar para sentar. Daí, liguei o automático de quase não responder até parar totalmente de falar. Mas vocês já devem imaginar que não adiantou tanto assim, já que noção, substantivo feminino, esse povo não tem.

Então, os dois exemplos que trouxe, de pedras no meu caminho, na condição de viajante mulher e sozinha, quase sempre, foram bem leves, nível quase zero de medo, muito por se tratar de dois locais relativamente seguros e movimentados.

Mas eu me pergunto:

E se na Capadócia o ocorrido não fosse no próprio hotel? A reação do rapaz seria a mesma de apenas bufar e sair chateadinho? Se na Noruega, não estivesse de dia, ao ar livre e com bastante gente ao redor, será que os sete rapazes apenas me perturbariam com abordagem chata e sem criatividade?

Infelizmente, essa condição é estrutural e ainda muito enrijecida e sustentada por antigos vergalhões socioculturais. Mas tudo o que é rígido pode ser amolecido. O dia de hoje não é à toa. Todas que vieram antes de nós lutaram e continuamos firmes no propósito de ruptura de todas essas vigas opressoras.

Seguir viajando sozinha é também uma forma de ocupar os espaços. É continuar dizendo ao mundo que, nós mulheres não vamos nos apequenar e, assim, abriremos caminhos para mais e mais outras ganharem território. E quanto mais mulheres avançam, mais a sociedade normaliza esse fato, já que homens não sentem medo de viajar sozinhos (por que será?).

Viajar, principalmente sozinha, é uma forma de resistir.

E resistência é substantivo feminino.

Resist placa

Se você é uma mulher viajante, recomendo que leia também Das delícias (e delícias) de viajar só. E se gostou desta reflexão leia também O poder da pequena mudança

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Beijinhos e até mais



Thais Oliveira

Pra sociedade: carioca e farmacêutica. Pra saciedade; de todos os lugares (por isso Viajo), de todos os saberes (por isso faço poesias, curso psicologia e curto arte), de todos os sabores (por isso adoro vinho, vento no rosto, dar risada sozinha e com toda gente). Exerço minhas multiplicidades.

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